26 de novembro de 2016

Por que ler com os bebês?

(publicação original no site da Comparto)

Eles podem não entender a palavra e seus encadeamentos lógicos, mas estão em intensa atividade de explorar sua natureza e o mundo. Conheça o papel das histórias e da leitura nesta jornada do início da vida.

“Desde o primeiro ano de vida, o bebê mergulha com intensidade e vivacidade na linguagem. Todo o ser participa: sua voz, seu corpo, seu olhar. Esta vida intensa tem efeitos contagiosos sobre o entorno do bebê. Em todas as culturas, esse é um momento privilegiado para transmitir-lhes as parlendas, pequenas histórias com gestos, cantigas de ninar. Essas narrativas acompanham as primeiras relações entre a mãe e o bebê e são relembradas durante toda a infância. Na família e fora dela, essas vivências sempre estarão associadas ao cuidado materno”.

(Trecho do livro “A pequena história dos bebês e dos livros”, produzido pela editora Pulo do Gato para os seminários Conversas ao pé da página)

O gesto ainda parece estranho para muitos, mas criar situações de leitura com os bebês, enquanto na barriga e depois do seu nascimento, pode trazer muitos benefícios. Não em um sentido utilitário, como forma de assegurar um aprendizado precoce, mas antes como recurso afetivo que permite fortalecer o elo entre mãe e filho e repercutir positivamente no seu desenvolvimento psíquico e emocional. Há um longo trajeto que requer a presença e o acompanhamento amoroso dos pais, desde o momento em que os filhos são concebidos até que estes estejam prontos para ler de maneira autônoma, nos lembra Yolanda Reyes, em seu livro A casa imaginária – Leitura e literatura na primeira infância.

Como já descrevemos aqui, na fase intrauterina, onde surgem as primeiras percepções do bebê sobre o mundo novo que habitará, ele está diretamente ligado aos pensamentos e ações de sua mãe. “Pensamentos, emoções e sentimentos da mãe se traduzem em moléculas que entram no corpo do seu feto”, esclarece o médico indiano Deepak Chopra no livro “Origens mágicas, vidas encantadas”. Em contrapartida, o bebê anuncia, mais ou menos no quinto mês de gestação, com seus primeiros movimentos, a sua presença e singularidade, dando indícios de seu temperamento e modos de ser e de estar no mundo.

“No último trimestre de vida intrauterina, o bebê responde, com seu próprio estilo, à estimulação visual, auditiva e sinestésica, e concretamente na esfera da linguagem, percebe as propriedades rítmicas da fala da mãe”, expõe Yolanda. “Ele aprende a reconhecer a melodia, as curvas da entonação e as pautas de acento; sensibiliza-se com o tom das orações e o ritmo das palavras. A experiência sonora da língua o prepara para prestar especial atenção na fala humana e, em particular, na voz materna, que será sua primeira referência quando chegar a hora de nascer.”

Portanto, enquanto ainda não pode compreender as palavras ou o seu encadeamento lógico – o ponto de desconfiança nos adultos em relação às possibilidades da leitura para bebês – o que resta aos pequenos seres, e não é pouco, é ir reconhecendo o nosso mundo de símbolos pelas vias tão fascinantes quanto misteriosas da voz materna. Tão cedo, neste momento, “começamos a habitar um mundo de linguagem, que nos chega entrecruzada de pulsações, vísceras e também de símbolos obscuros através de uma voz íntima”, descreve Yolanda. As histórias, então, são recursos para conduzi-lo nesta aventura de explorar a sua natureza de pessoa – algo que, conforme a tradição oriental, acontece muito antes da travessia pelo canal do útero.

A jornada continua após o nascimento, quando o bebê vai re-conhecer e re-descobrir essas vozes, da mãe, do pai, e a si mesmo e a todo o seu entorno. Com poucos meses, ele já se lembra de coisas e começa a interpretar e a organizar para si o ambiente em que vive. Sabe-se também o quanto o período de zero a três anos é a etapa de maior maturação e aprendizagem, quando a plasticidade do cérebro é praticamente ilimitada e na qual se registra a maior frequência de conexões neuronais. Neste período, que é de intensa atividade interpretativa, as histórias são um importante alimento para criar sentido e apoia-lo nesta inserção no mundo: “o material simbólico inicial para que cada criança comece a descobrir não apenas quem ela é, mas quem quer e pode ser”, diz Yolanda.

Não é à toa que, para além dos livros, as cantigas de ninar, os contos populares e as parlendas há milhares de anos são transmitidas de geração em geração. Neste repertório, independentemente da cultura em que se encontre, a mãe encontra uma forma – muitas vezes subliminar – de compartilhar com seu filho os segredos e as dificuldades da vida. Para as psicanalistas Maria Cristina Mantovanini e Patrícia Torralba Horta, esta foi, provavelmente, uma das formas encontradas pelos adultos para ajudar as crianças a entrarem em contato com tais ambivalências e complexidade. “Os contos de fadas, por exemplo, se tornaram atemporais por tratarem, via fantasia, dos medos mais genuínos e constituintes da infância”, descrevem em seu blog.

Por outro lado, se permanece nos pais a vontade de resguardar seus filhos dos terrores do mundo, vale lembrar que “saber que num tempo longínquo houve alguém que viveu temores e sentimentos próximos aos que carregamos pode servir de alento e conforto para nossas angústias e tristezas”. Além disso, as autoras ressaltam que, ao ouvir uma história, o sentido do enredo é dado não apenas pelo conteúdo, mas pelo que significa para quem narra. E que “nada substitui o aconchego da hora do sono produzido por uma voz familiar contando uma aventura, um romance, uma fábula, que ao mesmo tempo em que desvela alguns mistérios, faz com que nossa imaginação possa passear por novos caminhos e enredos, ainda não narrados”.

Ler com os bebês é uma forma perceber a leitura como exercício de autodescoberta e descoberta do mundo, e as histórias como alimento – um caminho certamente seguro, que requer quase nada além de atenção e afeto.

23 de novembro de 2016

Uma fantástica história sem pé nem cabeça

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Um monstro que come ovo frito e toma suco de laranja salva um avião em apuros no espaço aéreo de Guaxupé. Parece absurdo pra você? Pois um grupo de crianças do distrito de Iguaraí, nos arredores de Mococa, interior de São Paulo, não só acha essa história sem pé nem cabeça muito normal como também a transformou em um livro ilustrado, com o título Noite Monstruosa.

Desenvolvido para o Ponto de Cultura “Fazendo Cultura com Arte” – uma parceria do Grupo TUMM com a Fazenda Ambiental Fortaleza e a associação de bordadeiras Café Igaraí (distrito de Mococa) – o livro conta com seis exemplares únicos, impressos em tecido de pano pela técnica de transfer, com bordados coloridos sobre as ilustrações originais das crianças. Dá para imaginar?

Como conta a artista plástica Julia Malta, que trabalhou na estruturação do projeto ao lado do também artista plástico e antropólogo João Galera, as bordadeiras de Igaraí tiveram liberdade para criar além do que havia sido proposto, o que fez toda diferença no resultado final. “O jeito como elas criaram em cima dos desenhos das crianças ficou ainda melhor”, diz.

Antes de chegar à história que deu origem ao livro, uma preparação tomou lugar entre as crianças de 6 a 11 anos. Foram realizadas atividades de integração com o ambiente, a partir das quais eles desenharam o distrito de Igaraí, e sessões de contação de histórias, usando a metodologia “história aberta”, aplicada pela contadora Kiara Terra, na qual os ouvintes ajudam na construção da narrativa.

A prática que efetivamente deu origem à história foi a seguinte: segurando a ponta de um rolo de barbante, alguém começava a narrar e jogava o rolo para outra pessoa, que por sua vez dava continuidade à narrativa e assim sucessivamente, até que acabassem o barbante ou as ideias. A única interferência dos mediadores neste momento tinha o objetivo de manter a história viva, não deixando, por exemplo, que os pequenos autores matassem o personagem principal na primeira cena. “De resto, tudo foi bem livre e espontâneo”, compartilha Julia.

Com a história pronta, as crianças desenharam cenas, personagens e objetos, que depois foram escaneados e diagramados para o formato final do livro. O formato, aliás, foi pensado para ter um tamanho suficiente para que uma contadora, professora e outros mediadores de leitura pudessem ler a história junto com as crianças, sentados ao redor do livro no chão, “por isso ele é bem grandão”. Outro detalhe é que as linhas e tintas usadas são laváveis – “exceto algumas das cores que foram compradas errado, então elas soltam tinta!”, avisa Julia. Mas isso será solucionado nos próximos livros.

Por falar em continuidade, o resultado final do Noite Monstruosa empolgou as crianças e as bordadeiras a participarem da produção do próximo livro. No total, serão realizados 3 livros com diferentes histórias e aplicando diferentes métodos de trabalho. Katelin, de 9 anos, perguntou se agora Noite Monstruosa seria impresso em papel para ficar na biblioteca da escola onde ela estuda: “Se o livro ficar na biblioteca e os nossos amigos da escola virem que temos criatividade para fazer uma coisa tão bonita, eles vão entrar no TUMM e aí a gente vai ter muito mais atividades”. Estamos torcendo para isso, Katelin!

14 de outubro de 2013

Quem aí quer ser astronauta?

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Ser astronauta e ir pra Lua ou viver aqui na Terra? O que parece uma aventura maior pra você? Este é o conflito do Valentin, o pequeno heroi deste filme argentino, feito em 2002, e que leva o nome dele como título – merecidamente, aliás, porque é o próprio Valentin que pega a nossa mão para nos apresentar a sua vida aos 8 anos.

Um período bem crucial, inclusive, quando ele enfrenta a perda de parentes queridos e tem algumas expectativas frustradas, como reencontrar sua mãe e ver o pai com uma namorada legal. Mas um dos descobrimentos mais estranhos que Valentin faz neste ano, além do cabrito com duas cabeças que tem no museu da escola, é que tem pessoas que têm tudo e não aproveitam, como esse colega dele, que tem uma mãe e nunca fala com ela. Só sai da aula, entrega a pasta na mão dela, e pronto.

Apesar de tudo, este também é o ano em que ele começa a aprender piano, conhece alguns amigos de verdade, daqueles com quem você sabe que pode contar a toda hora, e se dá conta de uma coisa muito, muito importante: as coisas nem sempre são exatamente como a gente gostaria, mas já dá pra construir uma vida bem bacana com o que a gente tem.

Além do mais, com tanta história pra contar, o Valentin acaba resolvendo que, em vez de ser astronauta, vale mais a pena virar escritor e ser feliz neste planeta mesmo (até porque ir pra Lua parece ser um pouco perigoso).

14 de outubro de 2013

A infância de um poeta

El soñador_Neruda_Peter Sis

Você pode imaginar como seria a infância de um poeta? O que será que ele pensa quando é criança? Quais são as suas atividades favoritas? Pois foi o que fez a autora do livro O sonhador, Pam Muñoz Ryan, junto com o ilustrador Peter Sís, inspirada por alguns relatos de infância de um dos poetas mais importantes do século 20, conhecido pelo pseudônimo de Pablo Neruda.

Neftalí (nome de batismo do poeta) ainda era criança, mas já sabia algumas coisas sobre si: não gostava de matemática e gostava de ler, ver destroços descendo o rio e colecionar objetos. Para seu pai, ele era um cabeça de vento e vivia distraído. Mas era só uma impressão porque Neftalí prestava atenção em coisas diferentes dos outros. “Todo detalhe curioso de sua vida o provocava”, conta a autora. Desde um resmungo do vulcão (que parecia um dragão) até a escada que tinha sido abandonada no meio da construção e poderia levar a um castelo em outro andar.

Tinha também um hábito muito peculiar: colecionar objetos que para os outros podiam ser até estúpidos, mas para ele eram importantes. Varetas tortas, ninhos de passarinho, pedras de todo tipo. Imagine os tesouros que ele juntou quando acompanhou seu pai à floresta! Pinhas, ovos de pássaros, até a ponta do rabo de uma raposa. Na praia, também fez um museu de verão: a casa de um molusco, garras de caranguejo e muitas conchas e pedras novas.

“Sempre que Neftalí tocava um objeto, imaginava as histórias que uma criatura poderia ter contado enquanto cruzava o seu caminho: uma lagarta para uma folha, uma cobra para um graveto, uma raposa para uma semente” – era essa a sua maior aventura!

Outra coleção de Neftali era ainda mais intrigante. Escrevia as palavras que mais gostava e também as que não conhecia em um pequeno pedaço de papel, dobrava e guardava em uma gaveta. “Adorava o ritmo de certas palavras e, quando chegava a uma de suas favoritas, repetia-a muitas vezes: locomotiva, locomotiva, locomotiva”. Aliás, isso não dá uma boa ideia? Guardar suas palavras favoritas em um pote de vidro?

É um jeito de ter um pouco de sua infância sempre com você, mesmo que um dia mude de nome, como decidiu fazer Neftalí, e de compartilhar o que você viveu, como um grande colecionador de aventuras.

10 de outubro de 2013

Uma nuvem meio cheia

Ediciones sinPretensiones

Este é o espaço da oficina onde a gente compartilha todo tipo de assunto. Como ninguém sabe exatamente quando ou onde pode nascer uma ideia, vamos preparar uma espécie de reserva técnica. Faltou inspiração? Vem buscar na fonte. Aqui, você pode encontrar por exemplo a recomendação de um filme para o fim-de-semana ou de um livro bacana para ler na sua viagem, uma dica de passeio para fazer com a família ou de uma brincadeira diferente para jogar com os amigos, enfim, uma porção de coisas interessantes, que vão encher de ideias incríveis aquela nuvenzinha que mora em cima da sua cabeça, e de vez em quando chove para não explodir.

Como contou pra gente a querida psicóloga Mariana Quintero, que faz uma oficina de escrita para adultos que vivem situações muito difíceis lá na Colômbia, existe uma coisa chamada pré-escritura, ou seja, um tempo anterior ao momento em que um escritor senta para escrever. Antes, é preciso alimentar os pensamentos, enriquecer o olhar com imagens bonitas, ouvir uma história de vô ou de vó, prestar atenção no que acontece ao seu redor durante o passeio… Aqui, você também encontra algumas sugestões do que fazer nesses momentos!